Iguatemi

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domingo, 14 de dezembro de 2014

Pérolas do meu avô João Paulo


Vovô João Paulo, segurando seu tataraneto Glauber, meses após seu nascimento.

A última vez em que estivemos em presença de meu avô, foi no ano de 1989, quando ele decidiu viajar sozinho, da cidade de Rondonópolis - MS, visitando famíliares residentes no Ceará e nos visitou em Parnaíba. 

Na ocasião, nos revelou que jamais conhecera o mar. Apesar de seus mais de 90 anos, não tivera essa oportunidade. Tratamos de leva-lo, à Praia da Pedra do Sal e, de pé, sobre as pedras, próximo ao farol, ficamos a observar sua reação.


Ele ficou estático e silencioso por um tempo e desabafou:
- Ora, ora, eu pensava que o mar era muito diferente!
- Como você pensava que era? Perguntamos.
- Eu pensava que era uma parede muito maior que a dos açudes, mais isso é um absurdo de Deus que não tem fim. Agora sim, eu posso morrer, pois conheci o mar!
Jamais esqueci esse momento e, sempre que vou à Praia da Pedra do Sal, lembro desse fato.

Muitas outras histórias ficaram na lembrança, do tempo em que convivemos com essa figura extraordinária, meu avô, João Paulo. Algumas vivenciadas na infância, outras na vida adulta, conforme os relatos descritos abaixo.

Quando papai comprou nossa primeira televisão, no ano de 1970, em plena copa do mundo, meu avô em visita a nossa casa, se surpreendeu com a programação que assistíamos. Àquela época, o Chacrinha fazia sucesso com suas dançarinas seminuas, que se apresentavam juntamente com os cantores convidados. Ao ver a imagem, meu avô recriminando meu pai, disse:
Ora, compadre Sinhô (era assim que meu avô chamava meu pai, Manoel), como é que você compra um objeto desses pra dentro de sua casa? Devia ter empregado melhor, seu dinheiro, comprando um motor e não uma coisa dessas.

Outro fato interessante que me ocorre, foi quando escrevíamos uma carta para os tios que moravam em São Paulo. Meu avô ditava a carta e nós escrevíamos. Admirado com a rapidez da escrita, meu avô disse: Essas meninas não precisam mais estudar, compadre Sinhô tá gastando dinheiro à toa. Quem já sabe escrever uma carta, não precisa estudar mais.
Meu avô era analfabeto, mas, ninguém pegava ele nas contas. Dessas ele entendia perfeitamente.

Outra lembrança que me ocorre diz respeito a uma das férias que passamos no “Sítio Salvador”, como era chamada a propriedade do meu avô, creio que por volta de 1970/1973, não sei precisar exatamente o ano. Minha tia Paula ouvia o LP de Renato e Seus Blue Caps, em sua radiola a pilha e chorava de saudade de seu namorado Renato, que ficara em Juazeiro, quando meu avô, perguntou à minha avó Ana:
- O que essa menina tem Naninha? (como chamava a minha avó).
Ao que minha vó, sorrindo, respondeu:
- Tá com os calos doendo!
- Bota remédio nos calos dessa menina, Naninha! Orientou meu avô.

Já na fase adulta, casada e residindo em Grajaú no Maranhão, recebi a visita de meu avô que residia na localidade Baixa Limpa, há poucas horas de Grajaú. Estava na cidade fazendo compras e exibia uma lista de mantimentos, pedidos pela nora Angelita. Reclamava da quantidade de açúcar que era pedida e dizia que ela consumia açúcar demais e, desabafava:
- A Expresso de Luxo de Ezequiel, todo dia tem que fazer um bolo ou um doce. Se não tiver do que fazer, ela faz doce de açúcar.
Ezequiel é meu tio, casado com Angelita e que, à época moravam com ele. A Expresso de Luxo era a empresa de ônibus na qual ele sempre viajava.

Em outra oportunidade, de mudança para Imperatriz, pernoitei na Baixa Limpa e pela madrugada, pois ele madrugava, ouvi meu avô chamando pela minha prima, que morava com eles.
Edna minha filha, já é meio dia!
O dia nem amanhecera direito, ainda estava escuro. Minha prima levantou e fiquei a ouvir a movimentação na cozinha e, após um certo tempo, as janelas da casa foram abertas e o rádio foi ligado numa emissora, quebrando o silencio da residência. Não demorou muito e ouvi meu avô a reclamar:
- Nem bem o dia amanheceu e essa menina já ligou esse rádio?
Imediatamente, minha prima respondeu:

- Vô, decida se é meio dia ou madrugada?

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